Quando eu nasci, em 1973, nasceram junto comigo cerca de 123,56 milhões de crianças. O planeta naquele ano era habitado por 3,92 bilhões de pessoas. Em 2024, nasceram 132,41 milhões, mais ou menos a mesma quantidade de quando nasci, porém, o mundo em que meus filhos crescem já registra 8,1 bilhões de pessoas. Em pouco mais de 50 anos dobramos a população do planeta.
Esse aumento, principalmente nos últimos 250 anos, representa um progresso das condições de vida que resultaram numa expressiva diminuição das taxas de mortalidade infantil e no aumento da expectativa de vida. Tivemos avanços nos níveis de educação, melhoria nas condições de moradia e no padrão de consumo como jamais visto.
Mas a que preço?
Entre 1773 e 2024, a economia global cresceu 157 vezes, a população mundial cresceu 9,1 vezes e a renda per capita cresceu 17 vezes. Porém, o conjunto das atividades antrópicas ultrapassou a capacidade de carga da Terra e a Pegada Ecológica da humanidade extrapolou a Biocapacidade do Planeta. Isso significa que estamos utilizando mais recursos do planeta do que ele pode repor.
Aumentamos a temperatura média da Terra em 1.17º C, provocando eventos extremos que estão se tornando cada vez mais rotineiros. Em 2023, o mundo registrou as temperaturas globais mais altas dos últimos 100.000 anos, enquanto os recordes de calor foram quebrados em todos os continentes ao longo de 2022. Adultos com mais de 65 anos e bebês com menos de 1 ano, para os quais o calor extremo pode ser particularmente fatal, estão agora expostos a duas vezes mais dias de ondas de calor do que teriam vivenciado entre 1986 e 2005.
Reduzimos 75% das populações de animais da Terra, mamíferos já perderam 4% do seu habitat natural e a biomassa de animais selvagens reduziu de 99% para apenas 4%, enquanto os humanos passaram de 1% para 36% e os animais domesticados já representam 60% da biomassa do planeta.
Perdemos grande animais o que afetou diretamente os serviços que a natureza nos presta gratuitamente, como polinização, temperatura amena e regime de chuvas adequados para uma agricultura saudável. O planeta está em crise.
A sociedade moderna enfrenta duas grandes crises ambientais: as mudanças climáticas e a perda de biodiversidade. Embora muitas vezes tratadas de forma separada, ambas representam o grande desafio atual de saúde global. A crise climática e a perda de biodiversidade prejudicam a saúde humana e estão interligadas.
É por isso que devemos considerá-las em conjunto e declarar uma emergência de saúde global. Enfrentamos períodos de temperaturas extremas e declínio de populações de animais e plantas jamais vistos na história. A qualidade da água foi prejudicada, causando um aumento na propagação de doenças.
A acidificação dos oceanos teve impacto na vida marinha e na qualidade de peixes e outros alimentos originados do mar para milhares de milhões de pessoas. Esta crise planetária terá efeitos importantes na saúde como resultado da perturbação dos sistemas sociais e econômicos, causando escassez de terra, abrigo, alimentos e água, exacerbando a pobreza, o que por sua vez conduzirá à migração em massa e ao conflito.
Em contraponto, os espaços verdes que ainda restam são essenciais para ajudar a combater a poluição atmosférica, arrefecer o ar e o solo e dar às pessoas a oportunidade de se reconectarem com a natureza, de se manterem ativas e de interagirem umas com as outras, reduzindo assim a depressão e a ansiedade. Cuidar da natureza, combater a crise climática e a perda da biodiversidade resulta em bem-estar físico e mental.
Precisamos levar à sério os avisos da natureza. Não quero um futuro doente e socialmente injusto para os meus filhos. Eles não precisam se acostumar com guerras, fome, doenças, enchentes e extremos climáticos.
Quero que eles sejam capazes de sentir o frescor dos ventos, a brisa da manhã, de ver o verde das florestas e a beleza dos animais que me encantam. Juntos podemos fazer as escolhas corretas e mudar o destino do planeta.