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Um planeta desconhecido – Por Majela Salvio

Parece estranho que se invista milhões ou bilhões de dólares na procura por vida em outro planeta. Por quê? Simples, porque o nosso próprio ainda é um território desconhecido. Apesar de toda a nossa tecnologia e conhecimento científico acumulados, estima-se que mais de 90% das espécies que vivem na Terra ainda são desconhecidas pela ciência.

Isso mesmo, ainda que a definição do que é espécie seja um dos impasses das Ciências Naturais, anualmente são apresentados cerca de 18.000 tipos novos de animais, plantas, fungos e microrganismos. Tais números mostram quão é o nosso desafio. Muitas dessas espécies são extintas ainda antes de serem conhecidas e muitas outras já ingressam na lista de ameaçadas tão logo são descritas. Perder espécies é como rasgar páginas de um livro que ainda não lemos, não conhecemos o início da história nem o fim.

Lembro-me de uma das mais impactantes experiências que vivi. Quando entrei numa sala de espécies extintas pelo Homem no Museu de História Natural de Paris. Talvez essa seja uma experiência pela qual todos deveriam passar. Um sentimento de impotência misturado com decepção pelo que fizemos àquelas espécies. Se de alguma forma tivemos o privilégio de dominar a natureza, perdemos a razão ao não cuidar daquilo que é mais importante para a nossa própria sobrevivência.

Cada espécie morta, é uma peça a menos no frágil equilíbrio ambiental que sustenta a nossa própria vida na Terra. As atividades humanas já levaram 20 dos 35 sinais vitais do planeta ao limite. Precisamos cada vez mais falar a verdade sobre as crises que enfrentamos, em termos simples e diretos alertam para o território desconhecido que estamos nos encaminhando. A verdade é que estamos chocados com a ferocidade dos acontecimentos climáticos extremos em 2023.

As condições vão tornar-se muito angustiantes e potencialmente incontroláveis para grandes regiões do mundo, com o aquecimento de 2,6°C esperado ao longo do século, mesmo que os compromissos nacionais de redução de emissões assumidos em protocolos internacionais sejam respeitados. Sem ações que abordem o problema fundamental de a humanidade tirar mais da Terra do que pode dar com segurança, estaremos a caminho do colapso potencial dos sistemas naturais e socioeconômicos e de um mundo com calor insuportável e escassez de alimentos e água doce.

É imprescindível aceitar os limites do planeta, buscando uma nova forma de se relacionar com os recursos naturais, entendendo a finitude na Terra. Precisamos garantir que as futuras gerações tenham as mesmas oportunidades que nós e que não nos condenem por termos esgotado nossa maior riqueza e colocado em risco a sobrevivência de nossos filhos e netos. Precisamos garantir uma transição rápida e justa para um futuro sustentável que proteja esse território desconhecido.

Quem sabe quando as coisas ficarem insuportáveis, nossos líderes mundiais entendam que os bilhões de dólares gastos com guerras devem ser direcionados à nossa própria sobrevivência. Quem sabe entendam que ao invés de procurarmos vida em outros planetas tenhamos a sapiência de reconhecer que somos parte de uma biodiversidade, sem sobrepujá-la ou destruí-la.

Ainda há muito para aprendermos, é nessa biodiversidade desconhecida que encontraremos novas fórmulas medicinais que poderão salvar nossos amigos e parentes de doenças incuráveis até então. É nessa diversidade que não conhecemos que estão as novas possibilidades de alimento para as bilhões de pessoas que coexistem nesse planeta. Talvez tenhamos mais inteligência que as outras espécies, mas ainda nos falta sabedoria.

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