O Paraguai enfrenta uma grave crise política após o fechamento do banco digital ueno, que deixou clientes sem acesso ao próprio dinheiro e provocou uma série de denúncias contra o governo. A situação chegou ao Congresso e resultou na abertura de um processo de impeachment contra o presidente Santiago Peña, que chegou a apresentar um pedido de renúncia, mas continua no cargo.
O escândalo começou na terça-feira (3), quando o Banco Central do Paraguai anunciou o início do processo de resolução do ueno, após identificar que a instituição não possuía recursos suficientes para atender às exigências financeiras estabelecidas pelas autoridades.
O banco, pertencente ao Grupo Vázquez, tinha cerca de 3 milhões de clientes e concentrava aproximadamente US$ 850 milhões em depósitos públicos, incluindo recursos do Instituto de Previdência Social.
A crise ganhou repercussão política devido à ligação de Santiago Peña com o grupo controlador da instituição, do qual foi acionista até março de 2025.
O Banco Central do Paraguai identificou problemas na situação financeira do ueno, incluindo operações de crédito realizadas com empresas vinculadas ao grupo controlador do banco.
A autoridade monetária constatou que o índice de solvência da instituição estava abaixo de 50% do mínimo exigido. Esse indicador mede a capacidade de um banco de manter recursos suficientes para enfrentar riscos e cumprir suas obrigações.
Com a intervenção, clientes ficaram temporariamente sem acesso aos depósitos, provocando preocupação e uma corrida por informações sobre a recuperação do dinheiro.
Na quarta-feira (4), relatos de falhas nos aplicativos de outras instituições financeiras começaram a circular no país, aumentando a preocupação dos clientes.
A Associação de Bancos do Paraguai informou que as instituições estavam trabalhando para atender à grande procura de pessoas que tentavam transferir suas contas e afirmou que o sistema bancário continuava funcionando normalmente.
Na quinta-feira (5), deputados da oposição apresentaram pedidos de impeachment contra o presidente Santiago Peña e o vice-presidente Pedro Alliana.
Entre as acusações estavam possíveis conflitos de interesse, manipulação de regras, desvio de recursos previdenciários e suspeitas de que o Banco Central teria encoberto irregularidades.
A oposição também questionou a relação anterior de Peña com o Grupo Vázquez, controlador do ueno, apontando um possível conflito de interesses.
As acusações fazem parte do processo político e ainda dependem de apuração e julgamento.
Ainda na quinta-feira, a Câmara dos Deputados aprovou, por unanimidade, com 78 votos, a abertura do processo de impeachment contra Santiago Peña.
O pedido contra o vice-presidente Pedro Alliana, por outro lado, foi rejeitado. Dessa forma, ele permanece na linha de sucessão presidencial caso Peña deixe o cargo.
Em meio à pressão política, Santiago Peña apresentou uma carta de renúncia à Presidência, divulgada também por meio de um vídeo nas redes sociais.
O presidente pediu desculpas à população e afirmou que tomou a decisão pensando na estabilidade do país, na paz social e na preservação das instituições democráticas.
Entretanto, para que a renúncia tivesse efeito, seria necessária a aprovação do Congresso.
Durante a sessão realizada na quinta-feira, parlamentares da oposição defenderam que o pedido fosse rejeitado e que o impeachment continuasse.
Segundo os oposicionistas, caso deixasse voluntariamente a Presidência, Peña poderia assumir a condição de senador vitalício, prevista na Constituição paraguaia, com garantias parlamentares que não seriam mantidas em caso de destituição.
Já os aliados do presidente defenderam a aceitação da renúncia como uma forma de encerrar a crise política e permitir que o vice-presidente assumisse o comando do país.
A votação, porém, não foi concluída. Parlamentares do Partido Colorado, legenda de Peña, deixaram o plenário, provocando a falta do número mínimo de participantes necessário para a continuidade da sessão.
Com isso, a análise da renúncia foi suspensa e Santiago Peña permaneceu na Presidência.
Na noite de quinta-feira (5), o Senado iniciou o julgamento político contra Santiago Peña. O processo deve continuar nesta sexta-feira (6), quando o presidente terá a oportunidade de apresentar sua defesa.
Peña informou que pretende exercer esse direito e apresentar argumentos sobre as acusações.
O Senado é responsável por decidir se o presidente será afastado definitivamente. Para que o impeachment seja aprovado, são necessários pelo menos 30 votos entre os 45 senadores.
Caso seja destituído, o vice-presidente Pedro Alliana deverá assumir a Presidência do Paraguai.
Até a manhã desta sexta-feira (6), Santiago Peña permanecia no cargo, enquanto o país aguardava os próximos desdobramentos da crise política e financeira.