As despesas com alimentação devem continuar exigindo atenção das famílias nos últimos meses de 2026. Segundo o Relatório de Política Monetária de setembro do Banco Central, a expectativa é de aceleração dos preços dos alimentos até dezembro, influenciada pelas condições típicas dessa época do ano e pelos efeitos esperados do El Niño sobre a produção. Arroz e carnes também aparecem entre os itens que podem contribuir para essa pressão.
Os dados recentes já mostram aumento nas compras do dia a dia. No IPCA-15 de outubro, considerado uma prévia da inflação oficial, os alimentos consumidos em casa ficaram 1,01% mais caros. O gás de botijão subiu 1,28%, enquanto a energia elétrica residencial apresentou queda de 0,89%. Os percentuais refletem os resultados nacionais da pesquisa e não significam que todos os produtos e contas tiveram a mesma variação em Além Paraíba.
Em avaliação publicada pelo InfoMoney em 22 de outubro, Gabriel Pestana, economista da Genial, relacionou a pressão sobre os alimentos frescos às chuvas acima do normal, que prejudicam a oferta. Ele também apontou a aceleração do preço do boi como um fator de atenção para o mercado de carnes.
Na energia elétrica, outubro trouxe um alívio com a bandeira verde, que não tem cobrança adicional de bandeira tarifária. Segundo a Aneel, o aumento das chuvas em parte das principais bacias hidrográficas contribuiu para melhorar as condições de geração. A definição é mensal, portanto o anúncio de outubro não garante a manutenção da bandeira nos meses seguintes.
Ao mesmo tempo, o varejo alimentar apresenta sinais de crescimento. O monitoramento da NielsenIQ em parceria com a Associação Brasileira de Supermercados (Abras) registrou aumento de 7,4% nas vendas em valor entre 5 e 11 de outubro, em comparação com a mesma semana do ano anterior. Esse indicador mede o dinheiro movimentado nas vendas de alimentos.
Segundo a Abras, arroz, óleo, macarrão e café estiveram entre os produtos que se destacaram nas compras após a proibição das bets. Na avaliação da entidade, a redução dos gastos com apostas abriu espaço no orçamento das famílias para a aquisição de alimentos essenciais.
Representantes da Abras e da Associação Brasileira de Atacadistas e Distribuidores (Abad) relacionaram a recuperação das vendas à proibição das apostas de quota fixa, as bets, por medida provisória publicada em setembro. Na avaliação das entidades, a redução dos gastos com apostas abriu espaço para compras de alimentos.
Outro assunto relacionado ao custo de vida é a reforma tributária. Na quarta-feira, 28 de outubro, o Tribunal de Contas da União aprovou o cálculo da alíquota de referência de 11,3% para a Contribuição sobre Bens e Serviços, a CBS. O resultado será encaminhado ao Senado, responsável por fixar a alíquota de referência. O cálculo busca preservar a arrecadação federal dos tributos substituídos, conforme os critérios previstos na reforma.
Isso não significa que uma compra de R$ 100 passará automaticamente a custar R$ 111,30. A CBS substituirá PIS e Cofins em 2027, tributos que já fazem parte da tributação atual do consumo. Portanto, não se trata simplesmente de acrescentar 11,3% aos preços que o consumidor paga hoje. O novo modelo também prevê o aproveitamento de créditos de tributos pagos nas etapas anteriores da produção e da comercialização.
O efeito sobre os preços dependerá do produto ou serviço, da tributação anterior, dos créditos disponíveis e das decisões de repasse das empresas. Manter a arrecadação total não significa que a carga ficará igual para cada setor: algumas atividades podem pagar mais e outras, menos. Por isso, o percentual de referência, sozinho, não permite calcular o aumento de uma compra ou de uma conta doméstica.
Também há tratamentos específicos. Os alimentos previstos na cesta básica nacional terão alíquota zero de CBS e IBS. A legislação estabelece ainda a devolução de tributos para famílias de baixa renda que atendam aos critérios, incluindo despesas como energia, água e gás. Esses mecanismos precisam ser considerados antes de estimar o impacto da reforma no orçamento familiar.
A previsão de pressão sobre os alimentos até dezembro e as mudanças tributárias de 2027 são, portanto, assuntos com causas e prazos diferentes. Para os próximos meses, o cenário aponta atenção aos preços da comida e às definições mensais da bandeira de energia, sem evidência de que todas as despesas básicas terão aumentos na mesma proporção.
Fontes: Banco Central; Ministério da Fazenda, com dados do IBGE; Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel); NielsenIQ e Associação Brasileira de Supermercados (Abras); InfoMoney; Agência Senado; Tribunal de Contas da União (TCU); Receita Federal; Câmara dos Deputados; e Folha de S.Paulo.