O pontificado de Jorge Mario Bergoglio no trono de Pedro, iniciado em 13 de março de 2013, é um marco de inovação, inclusão e coragem.
Doze anos de uma Igreja em movimento, com reformas estruturais, viagens históricas, gestos simbólicos e um olhar atento às dores do mundo — especialmente dos pobres, migrantes e vítimas de conflitos.
Francisco inaugurou um tempo de processos irreversíveis e dinamismos novos, guiado por uma espiritualidade de encontro, escuta e fraternidade.
Ao longo desses anos, Francisco escolheu viver com simplicidade, reformou estruturas internas, abriu espaço para o diálogo inter-religioso e levantou bandeiras como o cuidado com o meio ambiente, a economia solidária e a fraternidade universal.
Sua linguagem acessível e o olhar voltado aos mais vulneráveis transformaram a maneira como o mundo enxerga a Igreja Católica.
E talvez nenhuma cena simbolize melhor esse Papa do que a Statio Orbis de 27 de março de 2020. Em plena pandemia, com o mundo em silêncio e em lockdown, Francisco apareceu sozinho na Praça São Pedro, mancando, sob a chuva, com o som distante de uma ambulância ao fundo.
Aquela imagem, transmitida ao vivo, emocionou milhões. Um homem idoso, em meio ao vazio, parecia carregar o peso de toda a dor da humanidade.
Ainda assim, ele falou de esperança. Disse:
“Demo-nos conta de estar no mesmo barco, todos frágeis e desorientados, mas ao mesmo tempo todos chamados a remar juntos.”
Foi um chamado à solidariedade em um dos momentos mais sombrios da história recente.

Um Papa de muitos “primeiros”
Francisco foi pioneiro em diversos aspectos: o primeiro Papa jesuíta, o primeiro latino-americano, o primeiro a escolher o nome Francisco sem numeração, o primeiro eleito com o antecessor ainda vivo e o primeiro a residir fora do Palácio Apostólico.
Visitou territórios nunca antes tocados por pontífices — como o Iraque e a Córsega —, assinou uma Declaração de Fraternidade com uma autoridade islâmica e instituiu um Conselho de Cardeais para governar a Igreja.
Entre outras rupturas significativas, aboliu o segredo pontifício em casos de abuso sexual e removeu a pena de morte do Catecismo.
Do “fim do mundo” à Praça São Pedro
A história começou em 13 de março de 2013, com um Papa recém-eleito que se apresentou ao mundo dizendo vir “do fim do mundo”.
Bergoglio pediu a bênção do povo antes de abençoá-lo — gesto que já anunciava o estilo pastoral que adotaria: próximo, simples, humano.
No dia seguinte, deixou claro seu itinerário: visitou a paróquia de Santa Ana e foi à Basílica de Santa Maria Maior agradecer à Salus Populi Romani, símbolo da proteção sobre seu pontificado — local onde, mais tarde, expressaria o desejo de ser sepultado.
Um pastor em movimento
A proximidade com o povo foi uma constante: visitas surpresa a escritórios do Vaticano, celebrações em prisões e abrigos, ligações telefônicas inesperadas e peregrinações aos bairros periféricos de Roma.
Desde a primeira viagem ao Brasil, em 2013, até a mais recente, em 2024, à Oceania e ao Sudeste Asiático, foram 47 viagens internacionais marcadas por gestos de reconciliação, escuta e presença.
Viagens que fizeram história
Destacam-se a visita ao Iraque em 2021 — descrita pelo próprio Papa como a mais bela —, em meio a ruínas, insegurança e pandemia, e o encontro com o líder xiita Al-Sistani.
Em 2015, abriu a Porta Santa do Jubileu da Misericórdia em Bangui, na República Centro-Africana, ainda em guerra.
Em 2024, aos 87 anos, percorreu 32 mil quilômetros em uma maratona por quatro países asiáticos e oceânicos. Lampedusa, Lesbos, Juba, Terra Santa, Canadá e Cuba foram outros destinos emblemáticos, onde clamou por paz, respeito às culturas indígenas, acolhimento e ecumenismo.
O Documento de Abu Dhabi e a Fraternidade Humana
Entre os marcos, destaca-se a assinatura do Documento sobre a Fraternidade Humana em Abu Dhabi, em 2019, com o Grão Imame Al-Tayeb — símbolo da ponte construída com o Islã e da busca por um futuro de diálogo e respeito mútuo.
Encíclicas que moldaram uma nova visão
O magistério de Francisco foi registrado em quatro encíclicas:
Lumen Fidei, iniciada por Bento XVI;
Laudato si’, um apelo urgente em defesa da “casa comum”;
Fratelli Tutti, fruto do encontro de Abu Dhabi e da esperança por um mundo mais fraterno;
Dilexit Nos, que recorda o amor do Coração de Jesus para um mundo que parece ter perdido o próprio coração.
Sinodalidade e escuta
Sua proposta de uma Igreja sinodal ganhou corpo em documentos como Evangelii Gaudium, Amoris Laetitia, Querida Amazonia e Christus Vivit.
Foram sete exortações apostólicas e cerca de 60 Motu Proprio que reformaram desde a estrutura da Cúria até o modo de lidar com os abusos.
Vos estis lux mundi, por exemplo, introduziu o conceito de accountability, estabelecendo a responsabilização de líderes eclesiais por atos de violência e omissão.
A reforma da Cúria e a força das mulheres
A Constituição Apostólica Praedicate Evangelium, promulgada em 2022, reorganizou a Cúria Romana e reforçou o papel dos leigos, incluindo mulheres em posições de liderança como nunca antes.
Francisco nomeou a primeira prefeita de um dicastério e a primeira governadora do Vaticano, além de garantir o direito de voto a mulheres no Sínodo.
“Todos, todos, todos”
O pontificado de Francisco se define em uma palavra: abertura. Acolhimento de todos — divorciados, pessoas LGBTQIA+, migrantes, pobres — sem romper com a tradição, mas abrindo caminhos possíveis com firmeza e ternura. A expressão “todos, todos, todos” tornou-se sua síntese mais viva.
Inovações
Em todos esses anos, não faltaram críticas ao Papa argentino, que enfrentou escaladas e ventos contrários com aquele humor que, segundo ele, “mais se aproxima da graça de Deus”.
Francisco provocou reflexões e surpresas — por quebrar tabus, romper protocolos e costumes antigos, remodelar o papado com novas vestes, residência fora do Palácio, gestos inusitados e um estilo pastoral original.
Também inovou ao aparecer em transmissões ao vivo pela internet e em programas de TV, usando a conta @Pontifex, em nove idiomas, como canal para mensagens com agilidade e alcance global.
Momentos difíceis e problemas de saúde
Foram anos intensos, com raros momentos de descanso (inclusive com o cancelamento das férias papais em Castel Gandolfo). Vieram tempos difíceis: processos judiciais — como o caso da gestão dos fundos da Santa Sé —, o escândalo do Vatileaks 2, denúncias de abusos e corrupção, e livros publicados sem “nobreza e humanidade”.
Houve também problemas de saúde: cirurgias no Hospital Gemelli em 2021 e 2023, internações, complicações respiratórias, resfriados, gripes e as dores no joelho que o levaram à cadeira de rodas nos últimos três anos.

Recentemente o Papa recebeu um diagnóstico de pneumonia nos dois pulmões, uma condição que pode inflamar e cicatrizar os órgãos, dificultando a respiração.
O Vaticano descreveu a infecção do papa como “complexa” e explicou que foi causada por dois ou mais microrganismos.
O pontífice também esteve em “estado crítico” enquanto internado e apresentou insuficiência renal inicial leve.
O papa chegou a gravar um áudio para os fiéis agradecendo orações pela melhora da sua saúde. A mensagem ocorreu após o Vaticano dizer que o pontífice permaneceu estável e não teve nenhum novo episódio de crise respiratória.
Contudo, os médicos denominaram o prognóstico do papa de “reservado”, o que significa que ele ainda não estava fora de perigo.
Hoje, o mundo se despede de Francisco. Mas sua palavra permanece, viva, no coração dos fiéis.
Do “fim do mundo” à centralidade da fé, do cuidado com a criação à sinodalidade, Francisco escreveu uma página decisiva na história da Igreja.
E enquanto a Praça São Pedro ainda guarda o eco da sua última passagem, neste domingo de Páscoa, em 20 de abril de 2025, a Igreja segue sua marcha, sustentada pelos frutos e sementes de um pontificado que abriu portas — e corações.